Congresso Observatorio economico 2020

Sob o contexto desta reunião internacional com especialistas de 20 países e a participação de mais de 10.000 ouvintes, Victor Basso fez referência ao período pós-pandêmico e suas considerações.

A economia é importante, SIM, mas não poderá resolver todos os problemas desta crise, que teve seu ápice com a Pandemia, mas que já havia dado vários sinais de que estava se formando muito antes do COVID.

Os smartphones para pronto uso nas mãos de 6.000 milhões de pessoas, trouxeram um nível de transparência que expôs a desigualdade existente em muitos países.

E o que acontece? O mundo não se sustenta com tanta transparência, fato pelo qual anos atrás, os conflitos sociais se agravaram. Em resposta à essa transparência os fortes líderes populistas apareceram para oferecer o que o povo deseja. “Isso resolve o problema para mim e pronto!”, e isso aconteceu em muitos países e não é assim simples e fácil de resolver.

São problemas em vários setores sociais e econômicos: direitos, liberdade, desigualdade, privacidade e outros.

No meu entender os “direitos iguais para todos” devem ser trocados por “oportunidades iguais para todos”. Essa utopia está ainda mais longe da igualdade econômica, que muitos procuram.

Devido ao grave problema do desemprego, que certamente virá agora no período pós-pandêmico, estaremos entrando num “período da desavença”, onde deixaremos de focar no vírus e passaremos a nos preocupar com problemas mais amplos. Outras crises virão.

A pandemia funcionou como um grande catalisador para os fatores que já estavam em ação: grandes mudanças tecnológicas e a concentração de poder correlativa.

A alocação universal de recursos será o próximo passo obrigatório para muitas sociedades, embora nem sempre possa ser aplicada devido à falta desses mesmos recursos. Alguma solução disruptiva terá de ser aplicada, para aqueles que nunca mais terão um emprego.

E para ilustrar, quero contar uma história:

Era o ano de 1900 em Londres os proprietários de carroças puxadas por animais fizeram uma longa greve. A reclamação era por causa do uso de motores nas carruagens, o que criou uma concorrência desleal, disseram. O resto da história já sabemos.

Resumindo: Resistir à mudança não nos traz nenhum progresso. Temos que nos adaptar.

Vale a pena lembrarmos Charles Darwin:

“As espécies que sobrevivem não são as mais fortes, nem as mais rápidas, nem as mais inteligentes, mas sim as que melhor se adaptam às mudanças”.

A situação mudou os mercados. Não existem apenas setores que estão ameaçados de desaparecimento. Os requisitos dos clientes em todos os mercados foram modificados, embora ainda não percebamos.

Não basta comprar uma câmera de vídeo para o seu computador e com isso pensar que já entrou no novo mundo digital. Nenhum aparelho, embora necessário, resolve isso. A telemedicina vai ajudar o setor da saúde, mas não é toda a mudança de que o setor precisa. A visão do mundo e da gestão (mindset) deve ser mudada.

Temos que ampliar o campo de estudo e ver a mudança filosófica para incluí-la em nosso sistema adaptativo.

As ferramentas nos fazem mudar, mas só mudar as ferramentas e os dispositivos não é o necessário para entrar no novo estágio. Isso requer uma mudança de paradigma na maneira como você vê o mundo.

Se tudo mudou, temos que assumir que não sabemos mais exatamente o que os clientes desejam. Claro que existem fatores básicos, que são atemporais e não mudam, mas não sabemos como eles se traduzem em outros tipos de requisitos.

Se não mudarmos a forma como interagimos com os clientes, não haverá melhorias. Precisamos dessa comunicação bidirecional: falar e ouvir. O meio não importa, pode ser digital. Entrar na fase Indústria 4.0 implica ter uma comunicação direta com o cliente com maior qualidade e valor, para ambas as partes.

Ouvir, imaginar uma solução, montar um teste de mercado, coletar as informações e repetir o ciclo é o caminho. Isso já existia, mas o que mudou foi a velocidade da iteração. Em vez de uma vez por ano, você deve fazer isso uma vez por mês.

Inteligência artificial, big data, blockchain, transformação digital, realidade virtual, etc., são tecnologias. Quem tem uma mentalidade adequada para seu uso, as aproveita e as aplica integralmente dentro de um modelo de negócio. Qualquer um deles encapsulado em uma matriz de negócios sem mudança cultural, não significará muito. Os gerentes ficarão satisfeitos por terem realizado mudanças. Mas eles estão errados. Esse não é o caminho.

A verdadeira mudança é a criação de uma cultura dentro da empresa que se adapte à nova realidade.

E qual é a nova realidade? Bem, todo mundo tem que descobrir isso, em seu setor.

Os chamados “setores da vida”, indústrias de alimentos, agricultura, saúde e educação serão as que sofrerão menos impactos juntamente com as de automação e digital.

As de intermediação sem valor agregado significativo serão as mais afetadas.

Esta crise revelou nossa fragilidade, num mundo muito mais complexo e chegamos à convicção de que existem cisnes negros. Agora começamos a acreditar que a próxima crise chegará e provavelmente está relacionada às mudanças climáticas.

Durante crises agudas, o primeiro objetivo é sobreviver. Quando ela terminar, o objetivo é crescer por meio de uma estratégia máxima. Quero pensar com uma visão otimista que depois de um longo reajuste, passaremos para um estágio muito melhor em termos evolutivos.

Portanto, o mais adequado agora será fortalecer nossa segurança pessoal e social.

Ou, como diz Sun Tzu, “Colocar-nos além da derrota”.

Em muitos países, o Estado se retirou. A pandemia nos levou a pensar que o Estado precisa crescer. Não precisamos de um Estado maior, o que precisamos é de um Estado mais eficiente.

Antes da pandemia, o mundo já estava em profundas mudanças.

A China em expansão, os Estados Unidos em contração e deixando livres algumas vagas que muitas vezes são ocupadas por terceiros (Rússia). A Alemanha lidera facilmente nesta Europa, onde muitos duvidam das vantagens colaborativas. A transição de um modelo para outro cria um vácuo de poder angustiante. A África e os países da rota da seda serão os favoritos para crescer. A América Latina não tem o poder de perturbar a paz mundial, por isso continuará a ser um ator coadjuvante.

Francis Fukuyama nos mostra como o progresso das nações tem suas condições e uma delas é a previsibilidade, pelo respeito às leis.

Nenhum país, nem grupo humano, progride se não tiver uma estrutura de liderança bem constituída, orientada ao bem comum e regida por leis que todos aceitam e respeitam (VEB).

Um problema exponencial não é resolvido apenas por soluções evolutivas.

Nosso erro hoje é pensar que com a vacina tudo volta ao normal. O rio não passa duas vezes pelo mesmo lugar.

Precisamos pensar em uma nova utopia, que possa ser alcançada, para esse mundo globalizado.

Victor Basso  Diretor Opuspac e Editor do Blog